Sábado no shopping center em São Paulo é um programa para famílias. No dia de folga, em Fortaleza, o passeio é no centro da cidade, coração do comércio. Nas duas capitais brasileiras, conhecemos dois casais tentando escapar das tentações.
O fim de semana costuma ser uma ameaça ao equilíbrio do consumidor. Há mais tempo e oportunidades para gastar o que se ganha nos outros dias, trabalhando. O importante é aprender a conviver com isso, principalmente em certos ambientes quase inevitáveis na vida urbana.
Maria Jose Valadares de Sousa trabalha com vendas, mas, no comércio de Fortaleza, ela só pensa em comprar. O marido, o cabo Jorge Luiz Valadares de Sousa, da Polícia Militar do Ceará, está vigilante. Nós também notamos que a vendedora admira tudo em volta.
Mas será que os homens também podem ser frágeis nesse ponto? "Ele é meio impulsivo para comprar. Quando ele quer comprar alguma coisa, ele não pergunta muito o preço", revela a professora Crenilda Gorecchio.
O marido meio consumista de Crenilda é o comerciante Márcio Gorecchio, mas ele jura que já foi pior. “Estou dando valor agora", afirma.
Ele valorizar o próprio dinheiro passa por lembrar situações difíceis e dos sacrifícios. E tem mais: crise financeira pode virar crise no casamento. As duas famílias, em São Paulo e Fortaleza, superaram, mas como conseguiram? É o que nós vamos mostrar.
Nada mais comum do que uma conversa, na hora do café. Mas já houve momentos dramáticos, na casa de Márcio e Crenilda, em São Paulo. “Nós tínhamos uma vida normal trabalhando. Ele, na marcenaria. De repente, as coisas começaram a desandar", lembra a professora.
A marcenaria de Márcio entrou em crise. E a renda familiar diminuiu, mas as despesas, não. "As contas estavam acumuladas. As dívidas foram se acumulando, sem poder fazer o pagamento", conta Crenilda. “Tínhamos conta de água, conta de luz, telefone, condomínio, assistência médica, coisas básicas do dia a dia".
"Fomos entrando no vermelho, fomos entrando no cartão de crédito, cheque especial e foi virando aquela bola de neve", revela Márcio.
"Era uma falsa ideia de que a gente estava bem. Eu sabia que a gente não estava bem, e eu queria cortar gastos. Ele segurava, não queria cortar", diz Crenilda. "Ele não queria diminuir o que a gente tinha".
"Eu tinha três carros, e vendi um. Em seguida, vendi outro e fiquei com um só. Chegamos a essa conclusão de que eu tinha que sair", conta Márcio.
O comerciante decidiu ir trabalhar nos Estados Unidos. Até pagar as dívidas e juntar algum dinheiro para recomeçar, passou cinco anos longe da família. Crenilda reconhece que foi um preço alto, mas necessário. “Naquele momento, foi a única opção que a gente teve", afirma.
A vendedora Maria Jose Valadares de Sousa e o cabo Jorge Luiz Valadares de Sousa, da PM Ceará, também vivem períodos de saudade. Normalmente, o serviço dele é burocrático, de ligação entre repartições, transporte de documentos.
Mas, nos últimos anos, sempre que possível, o cabo tem deixado esse trabalho relativamente tranquilo e assumido uma missão considerada perigosa pela polícia do Ceará. Ele faz isso tentando vencer outro desafio: equilibrar as contas da casa.
Durante 15 dias, Souza sai de perto do mar e da família e vai para o interior para fazer a segurança de postos avançados da Secretaria da Fazenda, junto às divisas do Ceará com Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Piauí.
"É no interior, muito longe da capital. É recolhida uma soma grande em valor financeiro. É preciso ter esse policiamento exatamente, para que o valor não seja roubado, não seja furtado", explica a 1º-tenente Daniele de Sales Pinheiro, psicóloga da PM do Ceará.
"Todos eles correm risco", aponta a vendedora Maria José. "Todos nós ficamos preocupados, toda família. Eu sempre digo: ‘Não vai, vamos dar um jeitinho. Vamos fazer outro empréstimo’. Mas chega um momento que infelizmente ele tem que ir".
É que a viagem aumenta o salário do cabo Souza em até 45%. Esta é só uma das maneiras que a PM do Ceará criou para ajudar os policiais em apuros. "Eles chegam ansiosos, chegam estressados, até porque a própria profissão de policial militar é uma profissão que leva ao estresse. Se, além disso, você ainda tem problemas financeiros, o estresse ainda fica maior", declara a economista doméstica Ana Luna.
Estresse, falta de dinheiro e ainda por cima solidão. "O pior momento foi quando eu fiquei sozinha aqui com as dívidas", lembra a professora Crenilda Gorecchio.
A sorte de Crenilda foi ter encontrado uma ajuda importante na faculdade onde estudava pedagogia, em São Paulo. Uma professora resolveu testar os alunos: o que eles sabiam sobre economia?
"A maior parte das pessoas não sabe nada, mesmo estudantes graduandos o que era o caso deles. Outras pesquisas têm demonstrado que até estudantes de economia também têm pouco conhecimento da economia do dia a dia", aponta a professora Sônia Bessa, da Unicamp.
Crenilda diz que aprendeu muito: "saber como comprar, o que comprar, a hora de comprar, não comprar qualquer coisa que vem à cabeça, não usar o cartão de crédito para dívidas a longo prazo sem saber como eu vou pagar."
Certos truques ajudam. "Nós temos um cantinho, onde a gente deixa as nossas contas. Elas já são organizadas em ordem de datas, quando elas deverão ser pagas”, revela Crenilda.
Bianca, de 9 anos, também participa do planejamento. “Ela sabe se a gente pode comprar uma coisa para ela ou não", reconhece a mãe da menina.
No caso da família de Fortaleza, são três filhos do primeiro casamento do Souza. E o material escolar abala o orçamento. "É bastante caro, no início do ano. Dá para respirar um pouquinho no meio do ano, quando não precisa mais comprar livro", diz Maria José.
Mas o maior problema, tempos atrás, era o comportamento da vendedora. "Eu era super compulsiva. Estou melhorando, estou lutando", afirma Maria José.
A economista doméstica Ana Luna orienta os policiais e ouviu muitas histórias comprometedoras.
A vendedora Maria José, esposa do cabo Souza, chegou a comprar um sofá que não cabia na sala e uns armários que simplesmente não se encaixaram na cozinha, sem contar o fogão super equipado e caríssimo. "De vez em quando, a gente tinha uns arranca rabo, como é chamado aqui no Nordeste, um desentendimento", lembra.
A doutora Ana Luna é testemunha: "nas conversas que eu tive com o cabo Souza, ele sempre relatava essa angústia, essa compulsividade dela com relação à compra e quanto isso interferia no relacionamento".
O cabo Souza revela que chegou a ficar devendo o dobro do que ganha.
Com as dívidas pagas, o comerciante Márcio Gorecchio agora trabalha na padaria da família, em um bairro pobre de São Paulo. Ele desistiu da marcenaria. "No negócio que eu tinha antes, entrava muito dinheiro, mas a minha vida foi decaindo. As minhas coisas foram ficando mais escassas", lembra.
"Eu aprendi a administrar tudo aquilo que você consegue com muito sacrifício, porque o que você consegue com mais sacrifício você pode dar muito mais valor", afirma Márcio.
Agora, dá até para ir ao shopping, mas com cautela. "Há uma folginha. A gente tem um orçamentozinho para o dia de hoje, mas não pode sair muito do que a gente programou", explica a professora Crenilda Gorecchio.
"No final de semana, a gente fica mesmo mais light, mais solto, mais à vontade. Não há nenhum problema com isso, que isso já esteja dentro do seu próprio planejamento de vida. Vou deixar, então, 20% a mais para garantir o fim de semana", declara a professora Sônia Bessa, da Unicamp.
Quanto a isso, Maria José vai tentando mudar: "antes era assim, se eu fosse ao shopping, eu tinha que trazer algo. Agora, eu já vou fazer pagamento e já não trago nada. As pessoas ficam surpresas, quem me conhece".
O cabo Souza afirma que a esposa melhorou, mas diz que ela pode melhorar ainda mais.
"Economia é bom, mas também tem limite. Às vezes, você já não é econômico. É um pão duro", brinca a vendedora Maria José.
Antes de comprar faça o Jogo da Regra dos Três Sins
Ao entrar em uma loja e gostar de algum produto, você deve parar e responder a três perguntas infalíveis.
Agora, o conselho da Ana Lidia Coutinho Galvão, coordenadora de economia domestica da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Ela criou um teste engraçado: O Jogo da Regra dos Três sins. Ou melhor: três vezes "Sim".
É muito simples. Se você entrou em uma loja e gostou de algum produto deve, antes de comprar, parar e responder. São três perguntinhas infalíveis.
- Eu preciso desse objeto?
- Eu tenho dinheiro?
- Tem que ser agora?
Veja como agir de acordo com a resposta para cada pergunta.
1 - Eu preciso desse objeto?
Se você responder que “não”, que não precisa do objeto, acabou a conversa. Se responder que “sim”, você vai para a pergunta 2.
2 - Eu tenho dinheiro?
“Se você não tem dinheiro, acabou a conversa também. Se tiver dinheiro, você vai para a pergunta 3.
3 - Tem que ser agora?
Se você responder que sim, leve o objeto. Se a resposta for negativa, não faça a compra.
"A gente tenta também levar no bom humor, porque dever é uma coisa pesada, chata", aponta a professora Ana Lídia. “Não precisa ter vergonha. Dá uma disfarçada”.
Dona de casa dá a volta por cima e diz que as dívidas geram baixa estima
A cabelereira Vânia chegou a receber uma ação de despejo, mas, após renegociar uma dívida de R$5 mil, conseguiu sair do sufoco.
DIRCEU MARTINSFranca (SP)
A pastinha da dor de cabeça virou troféu. É a pasta das contas, que agora, estão pagas. Quem vê a cabelereira Vânia Aparecida da Silva contente assim não imagina a situação em que ela estava quando nós encontramos com ela, há dois anos.
“Bateu um desespero. Dá uma baixa estima, vai te tirando o sono, não estou conseguindo comer mais, porque você se sente humilhado”, desabafa dona Vânia.
Para comprar a casa própria, em Franca, no interior de São Paulo, ela assumiu um financiamento e um empréstimo pessoal. Se animou e foi comprando: móveis, roupas e tudo mais que o impulso mandava. O aparelho de som e o sofá foram dois presentinhos para ela mesma. Resultado: as dívidas viraram uma bola de neve. As compras acabaram em lágrimas. O drama mexeu com a família.
"A situação financeira, acho que para qualquer pessoa, é uma situação que desencadeia um desequilíbrio total. Tira o apetite, tira o sono, tira o prazer, tira tudo, Tudo aquilo que te faz viver bem” desabafa a filha de Vânia, Tâmara Valentim.
Percebendo o desespero de Vânia, nossa equipe do Globo Repórter pediu ajuda para uma economista. Quando a professora Rosalinda chegou, a cabelereira nem sabia mais quanto, nem para quem devia. Ela estava mergulhada em contas, mas disposta a dar a volta por cima.
A visita da economista foi um marco, deu esperança, apontou um caminho. Mas o remédio seria amargo. Vânia precisava conter os gastos, fugir dos juros, faturar mais e tomar uma medida dolorosa.
"Para minha mãe, vender o aparelho de som e o sofá significava muito mais do que saldar a dívida dela, significava andar mais para trás do que ela já estava, ou seja, se desfazer do pouco que já se tem, do que havia conquistado”, conta Tâmara.
A ajuda da economista foi importante, mas Vânia teve que se virar sozinha para adequar as orientações ao dia-a-dia. Nem todos os conselhos foram seguidos. Ela não teve coragem de vender o aparelho de som e nem o sofá, que ela gosta tanto, e isso acabou funcionando como um estímulo para economizar mais.
A pasta estava cheia de boletos bancários, carnês de lojas, cheques devolvidos e nove contas de luz. E o mais assustador: uma ação de despejo, por falta de pagamento da casa própria. A economista sugeriu uma renegociação da dívida, que no total chegava a R$ 5 mil.
"Dever não é crime, mas não pagar começa a ser porque você começa a não ser ninguém. Me enchi de coragem e fui falar com quem: com o gerente”, conta Vãnia.
Vânia, que devia R$ 1800 ao banco, conta como tentou resolver o problema: "O gerente me explicou que, enxugando, ele deixaria em R$ 900, em parcelamentos. Eu temia, então ele deu mais uma secada, e ficou em R$ 600. Esses R$ 600 teriam que ser a vista, o que me deu uma certa preocupação. Mas ele me entendeu e deu 20 dias para quitar esses R$ 600. Aí eu fui para luta."
Tâmara conta que a mãe se esforçou para aumentar a renda familiar: "Por exemplo, durante o dia, ela pegou faxina, roupa para passar, ela pegou encomenda de alguns pratos, como bolo de aniversário, ela faz um escondinho de carne seca que é um espetáculo e ela viu que tinha possibilidade de vender e realmente surgiram encomendas. Ela começou a trabalhar à noite, durante o dia, finais de semana."
Descobriu que podia ganhar dinheiro até com risada de bruxa. Para ela, que já tinha se desdobrado em tantas, foi fácil dar voz a novos personagens.
“Cada história contada me rende R$ 150, e as creches, escolas particulares, até asilos, eles gostam da minha voz. Tem até uma gravadora particular que eu consigo, já gravei com eles, eles gostam. Para narrar eu faço voz infantil, eu faço a voz triste”, diz Vânia.
O talento pagou uma dívida, o trabalho duro liquidou todas as outras. É o ponto final que ela adora contar.
Quando perguntada sobre a ação de despejo, ela responde: “Esse era o bicho mais feio que me atormentava. Eu deitava e não sabia se ia poder acordar no outro dia, se eu tinha casa. Sumiu. Não existe mais. Passado. Acabou."
O controle das finanças fez muito bem à auto-estima e não é que Vânia arrumou um namorado? Hoje, a cabelereira é uma mulher apaixonada pela tranquilidade. E pensa em se planejar, até se for para casar.
Saiba como se organizar, com o orçamento do ABCD
O professor Fabio Gallo Coimbra, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, explica como a pessoa deve priorizar os gastos.
Duas em cada três famílias brasileiras gastam, em média, mais do que ganham. Ao todo, 68,4% estão com dívidas, segundo a pesquisa mais recente sobre orçamento familiar. Mas esse problema tem solução. Especialistas dão dicas bem práticas.
O conselho número 1 vem do professor Fabio Gallo Coimbra, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo: “saber o que ganha e o que gasta".
O economista explica como organizar um orçamento que dá certo. Basta seguir as letras ABCD.
A – Alimentar
B – Básico: conta de água, luz, telefone,escola de filhos.
C – Contornável: aquilo que faz a vida melhor e, em uma eventualidade, você corta.
D – Desnecessário: por exemplo, ter cinco cartões de crédito.
Legalização da energia aumenta gastos de comunidades carentes
Na comunidade Santa Marta, no Rio de Janeiro, uma unidade móvel do PROCON foi instalada, desde o ano passado. O projeto oferece orientação sobre consumo aos moradores.
TATIANA NASCIMENTORio de Janeiro
A unidade móvel do PROCON está na comunidade Santa Marta, bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio, desde novembro do ano passado. Este é um projeto pioneiro para orientar os moradores sobre consumo.
“Eles tinham problemas e não sabiam a onde recorrer ou a onde se dirigir para tentar solucionar. Nós recebemos muitas reclamações relacionadas à telefonia, cartões de crédito, a serviços essenciais, como a Light, por exemplo”, conta o coordenador do PROCON Móvel, Antônio Limeirão Neto.
A Light é a companhia que fornece energia na cidade. E as contas de luz são uma novidade na comunidade. O serviço foi legalizado no morro, como parte de um pacote de melhorias que a comunidade vem recebendo. O que antes era gato, agora virou cobrança e um gasto a mais no orçamento.
A dona de casa, Cláudia dos Santos, conta que há um mês vem recebendo contas aleatoriamente e que já não sabe mais quanto consome verdadeiramente por mês. A luz é mais uma preocupação para Cláudia, que já tem dívidas demais.
Cláudia diz que as dívidas feitas com cartão de crédito são as mais difíceis de pagar: “Eu pago sempre acima do mínimo, um pouco a mais.” Mas Cláudia se engana. Aí é que a dívida foge do controle, porque os juros são cobrados sobre o saldo devedor.
A dona de casa relata que está devendo, ao todo, R$ 3 mil. Só o marido de Cláudia trabalha. E a renda da família, que inclui a filha e a mãe aposentada, é de R$ 1 mil. Cláudia reconhece que precisa de ajuda para aprender a controlar os gastos e aceita receber a visita de um economista.
Nós resolvemos pedir a ajuda de um economista. Ele vai tentar resolver um problema comum a milhões de brasileiros: como evitar dívidas com um orçamento tão apertado? E ainda: como aprender a controlar os gastos e até economizar no fim do mês? O André vai mergulhar nas finanças, na casa da Cláudia, e tentar apontar uma solução.
O economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), André Braz, diz que Cláudia precisa colocar no papel todas as suas despesas, para que ela entenda onde estão os gastos excessivos feitos, sobretudo, com o cartão de crédito: “O cartão não é uma extensão da sua renda, ele deve ser usado com muita responsabilidade e só em momentos onde você. não tem para onde correr.”
O primeiro passo foi listar todos os gastos com alimentação, transporte saúde, contas da casa. O descontrole financeiro da família começou quando o marido de Cláudia perdeu o emprego: ele ajudou a construir novas casas no morro. Mas depois ficou mais de um ano sem trabalho. Agora, Cláudia espera reorganizar as contas, porque voltou a ter um salário fixo na família. Mas tem pela frente um longo caminho a percorrer.
“Se você tem uma renda por mês e sabe o quanto, mais ou menos, vai consumir daquela renda com supermercado, porque você usou o cartão
Ao saber que Cláudia tinha dois e não apenas um cartão de crédito, o economista repreendeu: “Você merece um puxão de orelha a partir de agora. Porque para ter um cartão de crédito, já tem que ter uma disciplina muito grande. Dois, então, foge completamente ao controle.”
E ainda tinha mais gastos para cortar, na casa de Cláudia. André descobriu que a conta do telefone também estava gordinha (R$160), e incluía um veloz serviço de internet.
”Para internet, existem provedores grátis, você pode tentar contato para eliminar essa despesa temporariamente do seu orçamento. Você pode dizer que o serviço não é igual ao do provedor pago, mas é temporário”, aconselha André.
Pagar as dívidas deve ser a prioridade do momento. E para começar é preciso aposentar os cartões de crédito.
“Existem outras instituições de crédito fornecendo, emprestando dinheiro a taxas mais competitivas, a taxas mais baixas do que as cobradas por cartão de crédito. Trocar essa dívida alta por uma dívida mais em conta é uma boa estratégia para você antecipar o pagamento desse cartão de crédito. Porque, literalmente, o que os juros fazem com o seu orçamento é: você pega o dinheiro no início do mês e rasga. Você está jogando fora, adverte o economista”
Pra terminar a conversa, Cláudia ouviu outro conselho. Não mais sobre o controle dos gastos, mas de como aumentar a renda: “Está na hora de você dar a sua cota no mercado de trabalho. Você é uma pessoa nova, que tem certo esclarecimento, então com certeza tem um espaço para você. nesse mercado”, afirma André. Cláudia promete pensar no assunto.
Filhos ajudam a mãe a organizar as dívidas, em Viçosa (MG)
No contracheque de Vera, sobraram apenas 40 centavos do salário, após os descontos dos empréstimos. E ela ainda devia R$ 15 mil. Foi o filho mais velho quem ajudou a arrumar o orçamento.
TATIANA NASCIMENTOViçosa (MG)
Não somos estimulados a economizar. Pelo contrário, somos quase treinados para o consumo. E manter as dívidas sob controle é um grande desafio, hoje em dia. Mas tem gente que resolveu comprar essa briga: aprender a gastar.
Imagina o desespero: vieram os descontos dos empréstimos e, no contracheque, sobraram 40 centavos de salário. E a funcionaria pública Vera Daian ainda devia R$ 15 mil.
Ela conta que enlouqueceu quando viu seu contracheque: "As coisas não podem continuar. Eu já estava separada, na época. Meus filhos não sabiam de tudo o que estava acontecendo."
Mas chegou a um ponto em que não deu mais para esconder. E Vera teve a grande surpresa: o socorro veio do filho mais velho, Goshai Daian, que tinha 18 anos. "Ele foi meio que salvador da pátria, porque ele freqüentou o curso inteiro e voltou muito entusiasmado com as coisas que ele tinha ouvido”, lembra Vera.
Foram conselhos de mestres: um curso dado na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, para os próprios funcionários. Eles estavam cheios de dívidas, assim como Vera, que trabalha na instituição.
A funcionária pública conta que primeiro seguiu à risca todas as orientações da professora Ana Lídia, que coordena o curso de economia doméstica da universidade.
"A gente tem que entender que dívida pode acabar sendo igual a uma doença. Igual quando a gente tem uma gripe, você cuida sozinho. No caso de uma pneumonia, você vai ao médico. Então, quando a dívida vai ficando grande, você precisa de uma ajuda profissional”, afirma Ana Lídia.
"Basicamente, foi o que ela falou: guarde todos os trocos, porque no final do mês você vai ter uma surpresa. E a gente fez isso: durante um mês, a gente guardou todos os trocos e, quando a gente foi somar, na época, acho que R$ 36 e que foi exatamente o valor de uma conta de água que estava atrasada”, lembra Vera.
Uma caneta, um bloquinho ou mesmo um pedaço de papel são ferramentas fundamentais para quem pretende organizar o orçamento, equilibrar as contas e acabar com as dívidas.
Tome por habito anotar todos os gastos, ao longo do dia, inclusive o cafezinho na padaria.
Com certeza, você vai se surpreender com a conta final.
Neesha Daian, filha da Vera, aprendeu direitinho a lição do irmão, que fez o curso de orçamento doméstico na universidade.
"Às vezes, as pessoas acham que essa disciplina é exagerada, uma coisa neurótica de colocar tudo no papel. Eu, no princípio, tinha isso assim: eu anotava cinco centavos da bala que eu gastava, trinta centavos do pastel”, conta Goshai.
O filho de Vera conta que a situação em casa estava difícil e foi ele quem ajudou a melhorar: "A situação estava ruim. A gente estava desesperado, sofrendo, mas a gente não sabia por onde começar. Eu acho que o mais difícil foi colocar as dívidas no papel, primeiro. Porque, de início, se você não tem nenhum registro das suas dívidas, todo dia vai surgir uma dívida."
Neesha foi acertar as contas na padaria e teve uma boa surpresa. “Porque no orçamento, a gente coloca o previsto e o que realmente aconteceu. A gente tinha colocado R$ 45”, diz. E a dívida não chegou nem a R$ 34.
A filha de Vera conta como controla os gastos no seu caderno: "A gente divide ele por partes. Tem, no caso, habitação, que são despesas com a casa: água, luz, telefone, internet, gás. A parte de alimentação, que no caso entraria a padaria, supermercado, almoço, porque a gente não almoça em casa, almoça fora. E tem a parte de saúde, no caso farmácia. E tem a parte de outros que são as despesas variáveis do mês."
"Quando começa a melhorar a situação, a família se empolga e até trabalha mais, e a coisa vai dando mais certo. Então, é extremamente importante estar tudo no papel e ter envolvimento de todo mundo”, aconselha Ana Lídia.
"Eu acho que não funciona se não envolver a família. Porque, se você dá liberdade para o seu filho ir à padaria e pegar alguma coisa sem avisar, ir à loja comprar um calçado sem avisar e se ele não tem consciência de que isso prejudica o orçamento da família, se ele não tem noção de quanto ele pode gastar, não tem como funcionar o orçamento", adverte Goshai.
"Eu escutei por muito tempo a minha mãe falando: ‘mas este problema não é seu’. É um problema meu também. Apesar de o dinheiro não ser meu, não sou eu que ganho, mas sou eu que gasto também”, admite Neesha.
"Mãe é mãe. A minha mãe fala que é muito difícil para ela, por exemplo, ir ao supermercado e ver alguma coisa que a gente gosta de comer e não poder comprar. Minha mãe odeia fazer compra comigo. Ela põe coisa no carrinho, eu tiro coisa do carrinho”, conta Goshai.
Nesse caso, os papeis se inverteram, porque na grande maioria das famílias acontece o contrário. Os filhos querem e cabe aos pais ficar dizendo não. Mas na casa de Goshai é o inverso.
O rapaz não mora mais com a família. Ele hoje se sustenta com uma bolsa de mestrado, no Rio de Janeiro. E coube à irmã Neesha dar sequência ao duro trabalho de cuidar da contabilidade da família.
"Hoje eu falo: ‘vai morrer, se ficar sem? Se for morrer, compra’. A sensação para mim é de dever cumprido.”, conta Neesha.
"Eu não conheço nenhuma família que tenha ficado no vermelho, por causa de mensalidade escolar, prestação de casa. São os pequenos gastos que corroem a família. Essas coisas pequenas a gente não anota, e o dinheiro vai no vendaval. E a gente perde o controle", afirma Ana Lídia.
Já se passaram quase seis anos. Vera ainda deve, mas agora sem sustos. O desconto na folha de pagamento tem hoje um limite aceitável, dentro do orçamento da casa. Uma vitória que exigiu disciplina e paciência. E o preço? Não há dinheiro que pague.
"Quando você põe a cabeça no travesseiro, deita e dorme você está com a consciência tranquila. Durante muito tempo eu não dormia bem”, revela Vera. “É uma conquista”.
23/07/2010 23h00 - Atualizado em
23/07/2010 23h10 Alunos de 10 anos vendem cachorro-quente para viajarem nas férias
Especialistas garantem: educação financeira deve começar nos primeiros anos da vida. Em Americana (SP), uma escola já põe esse ensinamento na prática.
Cristina MaiaAmericana (SP)
Depois da separação no ano passado, a decoradora Marcela Argento precisou enfrentar com os filhos uma revolução na vida financeira. O orçamento foi reduzido a um terço.
"Mudou bastante coisa. Eu tinha um plano (de saúde) muito bom, em São Paulo. Hoje tenho que contar com a rede pública. Passeios em shoppings, nos fins de semana. A escola dos dois era particular. Na hora em que nós viemos para cá, o mais velho foi para escola pública e agora consegui colocá-lo na escola particular, com bolsa. O mais novo ainda não vai. Não tenho condições”, desabafa Marcela.
Pedro, o filho de 7 anos, foi quem mais sentiu a mudança: "Ele queria a vida que ele tinha antes. Não queria a vida que estava agora. É muito difícil você ouvir isto de um filho. Porque ele tinha brinquedos, tinha os colegas e, de repente, tudo foi tirado dele", lembra.
Mas agora todos já estão se adaptando. A arquiteta, que nunca havia exercido a profissão, entra no mercado de trabalho cheia de novos projetos. Aos poucos, ela está conseguindo reforçar outros valores nos filhos.
Os nossos filhos começam a desejar já nos primeiros meses de vida. É justamente neste momento que, segundo os especialistas, a gente deve começar a trabalhar a educação econômica deles. Mas, independentemente da idade, os conceitos e os valores devem ser transmitidos e reforçados no dia a dia, para que eles sejam mesmo incorporados. Não é uma tarefa fácil. Exige disciplina e muita determinação. É um processo de aprendizado que precisa envolver as crianças.
Na infância, para compreender o significado de lucro e prejuízo e entender a importância de economia, só experimentando. Os alunos do quinto ano de uma escola de Americana, no interior de São Paulo, receberam um desafio: economizar dinheiro o ano inteiro.
"No final do ano, a gente vai ter um acampamento e é muito caro. Alguns pais não conseguem pagar”, diz Henrique Sai, de 10 anos.
O desejo de todos é único: o acampamento em um parque ecológico. “É bem legal, porque a gente está vendendo uma coisa para conseguir o que a gente quer, que é ir ao acampamento”, comenta Júlia Rodrigues, de 10 anos.
Os alunos precisam de R$ 4,2 mil e já têm R$ 2,2 mil. Na aula, eles fazem reajustes no preço, definem a margem de lucro.
"A gente está tendo bastante lucro, porque aumentou a venda", explica uma menina. "Podia diminuir o preço, porque as pessoas iam comprar mais”, comenta Felipe Nebesnyj, de 10 anos.
E os alunos até abriram uma conta no banco para eles. “No início, vendíamos apenas pipoca e bidu. E era um valor baixo: R$ 0,50. Demorava um pouco para eles terem lucro. Então, a gente combinou de vender o cachorro-quente que dá um lucro maior”, conta a professora Ariádila Andrade.
Fora a preparação do lanche, que é feita por funcionários da escola, os alunos cuidam de tudo. Arrumam as mesas, montam o caixa, os pontos de venda, atendem os consumidores. A venda é feita uma vez por semana e faz sucesso entre os outros alunos.
No fim do dia, depois de contarem o dinheiro, precisam prestar contas dos ingredientes comprados pela escola. "Às vezes, eles brigam, porque eles não querem me pagar. Eles querem que o colégio assuma essa dívida”, diz a secretária financeira Regina Célia Mendes.
"Quando a gente recebia o dinheiro, a gente ficava com mais. Vinha a diretora com uma conta enorme, a gente pagava e perguntava: tem que pagar mesmo?”, conta Maria Júlia Rizato, de 10 anos.
A proposta foi apresentada ao colégio pela professora Maria Belintane Fermiano, da Unicamp. Por cinco anos, ela acompanhou alunos de 8 a 14 anos.
“Nossas crianças têm um perfil muito diferente do perfil de quando éramos crianças, porque nos não lidávamos tanto ou quase nada com o dinheiro. Eles, não. Eles já são clientes. Eles já têm um mercado voltado para eles. Eles precisam aprender", afirma Maria Belintane Fermiano.
O primeiro passo, segundo ela, é a reflexão dos pais. Como distinguir desejos de consumo de necessidades reais? Quando eles reconhecem as diferenças, conseguem orientar os filhos. Fazer uma espécie de livro caixa com eles, anotando entrada e saída do dinheiro, ajuda a visualizar melhor os gastos.
“A escola vem como auxiliar, abrindo possibilidades desta educação econômica acontecer efetivamente”, afirma professora Maria Belintane Fermiano, da Unicamp.
A decoradora Marcela Argento garante: o apoio da escola faz toda a diferença. "Antes, eu comprava e depois fazia a conta. Hoje, eu faço conta para comprar”, afirma.
última edição |23 de julho de 2010reportagem 8 de 8